Elton, Sir Elton

Seção: Notícias

2 jul 2009

Elton John

Nova resenha publicada. Dessa vez, a resenha é de um show de Elton John na Irlanda. Escrita pelo amigo-jornalista Thiago Crespo em viagem (permanente) à Irlanda.

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Escrito por Raphael Sanchez

Elton, Sir Elton

Seção: Resenhas

2 jul 2009

Quatro meses, vinte dias e catorze minutos depois de comprar o ingresso para o que julgava ser um grande espetáculo, deparo-me a poucos metros do piano talvez mais importante de todos os tempos da música pop. Seis de junho de 2009, Limerick, Thomond Park. Após uma hora e meia de espera na fila do lado de fora, sou a décima terceira pessoa a irromper portões adentro. Algo, porém, parece contrariar a boa ventura prenunciada do meu número de entrada: vindo de uma semana cheia de sol e relativo calor, o clima irlandês retoma a costumeira chuva num céu cinzento. Muita chuva, muito frio. Mas não importa – não fosse o preço da capa de chuva saco-de-lixo a cinco euros (que eu comprei mais para contrariar a certeza da amiga Mari de que eu preferia tomar chuva a gastar dinheiro).

As dimensões do estádio ainda vazio alertam: há de ser mais do que simplesmente um grande espetáculo. É preciso conter o entusiasmo, contudo, sob o risco de me frustrar mais tarde. Não a ansiedade; demoro um exato minuto para atravessar o campo e assegurar o espaço no qual jamais tive a pretensão de estar. O piano ainda está coberto, mas as letrinhas de seu manto são perfeitamente legíveis. O Yamaha preto ainda guarda consigo algum mistério e inquietude à espera de seu dono. Tudo o que nos separa é uma grade baixa e o vão para seguranças e fotógrafos trabalharem.

Ao meu lado, um garoto apenas um pouquinho mais alto que a grade me desperta a atenção: Elton John deveria ser exatamente assim aos seus oito ou nove anos. Os cabelos lisos e escorridos, o corte redondo e até mesmo os óculos precoces confundem o astro já denominado um Sir com o menino que mal enxerga o piano. Depois de confirmar com o senhor ao meu lado que é seu filho, exclamo por dois motivos: trata-se um protótipo do cantor, brinco, mas, falando sério, não é comum ver alguém tão novo com os olhos estalados no palco mesmo a horas do show começar. O senhor ri, diz que, por que não, seu filho um dia será como o mestre-pianista. “Conhece mais do que eu”, completa, e retruca a surpresa de sua parte: um estrangeiro perdido em Limerick, apenas por conta de Elton? “Sou brasileiro. Saí de São Paulo para vir a esse concerto, mas aproveitei para ficar um pouco em Dublin e polir o inglês”. O senhor responde em riso apreensivo, custando a equalizar a piada.

Mais uma hora e meia de espera. Mais chuva, mais frio. São dezenove horas e o estádio ainda está quase vazio quando o artista coadjuvante abre o espetáculo com seu violão e mais nada. A cada música que toca, aquece as mãos num sopro demorado. Algo em torno de meia hora depois, despede-se e deixa o palco pronto para os últimos ajustes. O piano é descoberto. O público aplaude. O funcionário da equipe técnica borrifa um produto qualquer a fim de manter seu brilho à altura. Não é preciso, convenhamos.

Legitimada a pontualidade britânica, Reginald Kenneth Dwight está no palco às oito da noite. Elton John, para os íntimos – também conhecidos como mundo inteiro. O medley de Funeral For a Friend e Love Lies Bleeding soa triunfal, perfeito para a ocasião. A sincronia inicial entre percussão, sintetizador e piano é intensa ao ponto de não se fazer perceber o delírio da multidão entre gritos e assobios. Sem delongas, Saturday Night Alright For Fighting. Não se tratasse de um repertório de Elton John, soaria algo inexperiente gastar um rock desses logo no início. Não há motivos para se preocupar, no entanto: não lhe faltam cartas na manga do fraque com motivos coloridos e brilhantes sobre a camisa de seda azul royal. Estampada nas costas, o que identifico como a figura de anos atrás do próprio músico sentado na lua. Elton sabe exatamente o que faz. E segue com Burn Down the Mission, não sem antes trocar as primeiras palavras com a plateia e agradecer a oportunidade de ser recebido num dos mais tradicionais estádios de rúgbi do país. Ao contrário de Bob Dylan, faz parte do show de Elton estar em contato permanente com os espectadores. Agora ele pede para que o público participe da próxima canção no intuito de que todos se mantenham aquecidos ante o tempo ruim. Trata-se de nada mais, nada menos do que Goodbye Yellow Brick Road. É quando constato que a pele eriçada já não é mais fruto do frio.

Elton John

Ao fim de cada execução, Elton se levanta, vibra, reverencia os súditos de todos os lados. Aperta os punhos, grita, gesticula, agradece, acena em positivo com a cabeça. Não é diferente com o piano. O domínio sobre cada nota é impecável. A voz se mantém intacta. Diante do que assisto a cada canção, não há palavra qualquer que defina com mais exatidão o comportamento do mestre diante do que faz senão uma só, usualmente considerada vulgar: tesão. Elton John – ainda – tem imenso tesão pelo que faz. Óbvio, posto isso, é imaginar quem não teria.

Sobretudo quando se tem ao lado um conjunto igualmente poderoso. Além do piano, agora já sem mistério algum, mas inquieto como nunca, Elton conta com mais um teclado, uma guitarra (nas mãos versáteis do veterano Davey Johnstone, melhor dizer que são várias), uma bateria e percussão (impressionante, diga-se de passagem; o mais novo do grupo, John Mahon, usa meias-luas como “baquetas”).

Dentre clássicos românticos, músicas tristes, baladas, suingues, roques e virtuoses pop, fica o hibridismo de um artista que sabe sintetizar em perfeito equilíbrio mais de quatro décadas de carreira inquestionável. O tempo simplesmente não passou para Daniel, Tiny Dancer, Crocodile Rock, Candle in The Wind e vinte outras que compõem as duas horas e meia mais densas que já vivi. Concluídas, claro, com Your Song. Nem mesmo canções como está última, Sacrifice e Skyline Pingeon, aquelas as quais nos trazem a sensação de que já nascemos conhecendo, soam clichê quando executadas ali, ao vivo – e a pouquíssimos metros de mim. No todo, o show está longe de ser simplesmente um amontoado de sucessos revisitados – embora o pareça a quem não está na plateia ou nunca fez parte dela.

Às dez e meia da noite, sob alguma chuva e muitos aplausos, Sir Elton John se despede dos irlandeses e do brasileiro. Não deixa de ressaltar o agradecimento por termos todos não apenas ido, mas sido tão calorosos e amáveis em condições terríveis como aquela. Em sua simpatia e modéstia desmedidas, no entanto, ele bem sabe que o que nos aqueceu e nos elevou ao amor é exatamente aquilo que agora está coberto de novo.

Cabe-me agora contrariar a fama de entusiasta. Não devo escrever ou mesmo dizer de minhas impressões no paradoxal calor do momento. Avesso à tecnologia, mas o primeiro adepto quando ela é fácil e custa só vinte e cinco euros, tenho o disco do show minutos depois de seu fim. Os dias passam sem que eu consiga ficar sequer um só sem ouvi-lo.

É inegável: quatro meses, vinte dias e catorze minutos antes de estar em frente ao piano esperando por um grande espetáculo, comprei o ingresso que mudou, senão apenas minha vida, a forma como passei a vivê-la através da música.

Elton John

Escrito por: Thiago Crespo, amigo, jornalista, dono do blog Dublin ao vivo, não volta mais da Irlanda.

Escrito por Raphael Sanchez

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